Richard Cowan
Washington | Reuters
Nancy Pelosi, a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, anunciou nesta quinta-feira (6) que não concorrerá à reeleição em 2026, encerrando uma carreira política de quatro décadas como ícone democrata progressista.
“Não buscarei a reeleição ao Congresso. Com o coração grato, aguardo meu último ano de serviço”, disse Pelosi, 85, em um vídeo publicado na rede X.
Eleita pela primeira vez em 1987, a congressista pela Califórnia fez o anúnciodois dias após os eleitores do estado aprovarem por ampla margem o novo mapa de distritos eleitorais, com o objetivo de conquistar cinco assentos na Câmara para os democratas nas eleições legislativas do próximo ano.
A aprovação da chamada Proposição 50 na Califórnia foi uma resposta a umamedida semelhante adotada pelo Texas, com apoio de Donald Trump, para favorecer os republicanos. A reação foi impulsionada pelo governador democrata Gavin Newsom, com total apoio de Pelosi.
Ela esteve na linha de frente da disputa pelo controle da Câmara e, em especial, dos embates com o republicano Donald Trump, com quem travou confrontos durante o primeiro mandato presidencial, de 2017 a 2021.
A aposentadoria de Pelosi ocorre após anos de queixas entre democratas mais jovens de que os veteranos se mantinham no poder sem preparar novas lideranças. Essa tensão ficou clara em 2024, quando o então presidente democrata Joe Biden, 81, teve um desempenho desastroso no debate com Trump e acabou desistindo da corrida presidencial semanas depois, em parte pressionado por colegas como a própria Pelosi.
Nancy Pelosi, caminha em direção ao House Triangle, no Capitólio, em Washington – Tom Brenner – 18.mai.22/Reuters
CONFRONTOS COM TRUMP
Em entrevista à Reuters em 2022, Pelosi foi questionada se tinha arrependimentos em sua carreira, especialmente diante das divisões crescentes na Câmara. Ela respondeu que gostaria de ter vencido mais eleições “para impedir que uma criatura como Donald Trump se tornasse presidente dos Estados Unidos”.
Pelosi tentou destituir Trump duas vezes, conduzindo os processos de impeachment no fim de 2019 e no início de 2021 —ambos frustrados no Senado, controlado pelos republicanos.
A animosidade entre ambos chegou ao auge durante o discurso do Estado da União de 2020, quando Trump se recusou a apertar a mão de Pelosi. Ao fim do discurso, ela rasgou o texto impresso em pleno plenário, dizendo depois que “cada página continha uma mentira”.
Em 2021, Pelosi também irritou republicanos ao rejeitar duas indicações feitas pelo partido para a comissão especial que investigava o papel de Trump no ataque de 6 de janeiro ao Capitólio. O então líder da minoria, Kevin McCarthy, afirmou: “Os republicanos não farão parte desse processo farsesco e conduzirão sua própria investigação dos fatos.”
O clima de ódio político atingiu sua vida pessoal em 2022, quando um conspiracionista de extrema direita invadiu sua casa em São Francisco e atacou seu marido, Paul Pelosi, com um martelo. Ele se recuperou dos ferimentos.
SAÍDA ABRE ESPAÇO PARA GERAÇÃO MAIS JOVEM
Com a saída de Pelosi Congresso no fim de 2026, ao término de seu 20º mandato, os democratas perderão uma de suas figuras mais emblemáticas em meio a um período de incerteza partidária.
Sua decisão, porém, não deve alterar as disputas internas pela liderança interna após as eleições de meio de mandato de 2026, quando os democratas esperam retomar o controle da Câmara, composta por 435 assentos.
Três anos atrás, Pelosi já havia se afastado da liderança democrata após comandar a Câmara por dois períodos —de 2007 a 2011 e de 2019 a 2023—, abrindo espaço para uma geração mais jovem.
O deputado Hakeem Jeffries, de Nova York, assumiu seu antigo posto de líder democrata na Câmara, enquanto o senador Chuck Schumer, 74, segue no comando da legenda no Senado.
Apesar de algumas tensões entre Jeffries, 55, e a ala mais progressista, ele é considerado o favorito para assumir a presidência da Câmara caso os democratas recuperem a maioria.
“Nancy Pelosi é uma figura icônica, lendária e transformadora, que fez tanto, por tantos anos, para melhorar a vida de tanta gente”, disse Jeffries em entrevista coletiva na segunda-feira ao ser questionado sobre as intenções de Pelosi.
LEGADO E ESTILO
Durante sua trajetória, Pelosi construiu reputação como defensora dos direitos humanos e apoiadora de primeira hora dos direitos LGBTQIA+, em meio à crise da aids que assolava São Francisco nos anos 1980.
Seu maior orgulho político, contudo, é ter ajudado o então presidente Barack Obama a aprovar a Lei de Cuidados Acessíveis (Affordable Care Act), conhecida como Obamacare, em 2010.
“A saúde se tornou nosso grande tema, e isso será a coisa mais importante que já fiz no Congresso”, declarou em 2022.
Conhecida por sua energia incansável —e por cruzar os corredores do Capitólio em ritmo acelerado, usando seus característicos sapatos de salto agulha—, Pelosi também foi uma das principais arrecadadoras de fundos do Partido Democrata.
“Eu precisava levantar cerca de US$ 1 milhão por dia — bem, pelo menos cinco dias por semana”, contou uma vez a jornalistas.
A congressista também era conhecida por contrariar a cultura californiana de alimentação saudável. Ela dizia comer um cachorro-quente com mostarda e relish todos os dias no almoço, além de chocolate e sorvete no café da manhã.
Veículo: Folha Uol











