O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a utilizar a linguagem dos games em meios de comunicação oficial para promover o seu governo. Na última quarta-feira (4), a conta da Casa Branca no X publicou um vídeo (em postagem posteriormente deletada) que mostrava bombardeios ao Irã como se fossem cenas do jogo de guerra “Call of Duty”.
O filme começa com uma cena do jogo, em que o jogador pode pedir suporte aéreo para bombardear algum ponto do mapa. Na sequência, são mostradas imagens reais de bombardeios. Quando os alvos são atingidos, aparecem números indicando a pontuação, como no jogo.
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante entrevista coletiva – Roberto Schmidt – 9.mar.26/Getty Images/AFP
Não parou por aí. No dia seguinte, data de lançamento do pacato jogo de fazendinha “Pokémon Pokopia”, a Casa Branca publicou uma imagem copiando a identidade visual do jogo com os dizeres “Make America Great Again”, lema da campanha de Trump.
Já na sexta (6), a Casa Branca voltou a publicar um vídeo semelhante ao primeiro, mas agora com imagens do game “GTA San Andreas”.
A prática é recorrente na gestão Trump.
- Em setembro do ano passado, o Departamento de Segurança Interna já havia publicado um vídeo de gosto no mínimo duvidoso em que mostrava imagens de prisões do ICE (Agência de Imigração e Alfândega) com a música tema e imagens do anime de Pokémon (“Temos que Pegar”);
- No mês seguinte, a mesma conta usou imagens do jogo “Halo”, em que soldados lutam contra uma raça alienígena, em uma campanha para recrutamento do ICE;
- Também em outubro, a Casa Branca divulgou uma imagem feita por IA em que Trump aparece com uma armadura semelhante à de Master Chief, personagem principal da série “Halo”.
As postagens e memes ligados ao mundo “gamer” remetem ainda à primeira campanha presidencial de Trump, quando Steve Bannon era o principal estrategista político do presidente americano.
Em 2014, após observar o caso “Gamergate“, Bannon notou que havia entre jovens brancos americanos um descontentamento latente com políticas afirmativas. Além disso, notou nesse estrato populacional um “exército” para combater o pensamento progressista, com capacidade de repercutir tanto no mundo virtual (com memes e xingamentos) quanto no real (com boicotes e compartilhamento de informações pessoais de adversários, prática conhecida como “doxing”).
“Você pode ativar esse exército. Eles entram por meio do ‘Gamergate’ ou algo do tipo e depois são direcionados para a política e para o Trump”, disse Bannon ao jornalista Joshua Green no livro “Devil’s Bargain: Steve Bannon, Donald Trump, and the Nationalist Uprising”, que conta os bastidores da primeira campanha presidencial do republicano.
A persistência na tática não chega a surpreender. O que impressiona é a passividade com que as empresas de games permitem que o presidente americano use as suas marcas e propriedades intelectuais para se autopromover.
Em 2016, a Electronic Arts tomou medidas concretas para tirar do ar um vídeo repostado pelo então candidato das eleições primárias republicanas para a Presidência dos EUA, em que ele usava músicas e dublagem do jogo “Mass Effect”.
“O vídeo faz uso não autorizado de nossa propriedade intelectual. Não apoiamos que nossos ativos sejam utilizados em campanhas políticas”, disse a EA em comunicado na época.
Hoje, porém, as investidas do presidente americano são ignoradas pelas empresas ou, no máximo, resultam em uma nota anódina.
Activision, Xbox e Microsoft, por exemplo, até agora não se manifestaram sobre a associação de “Call of Duty” a um conflito real.
Já a porta-voz da The Pokémon Company, Sravanthi Dev, afirmou que a empresa não deu permissão para uso da sua propriedade intelectual. “Nossa missão é unir o mundo, e essa missão não está associada a qualquer ponto de vista ou agenda política”, afirmou. Ainda assim, a postagem continua no ar.
As empresas de games parecem evitar entrar em confronto direto com Trump devido à forma autoritária como o presidente americano lida com aqueles que ousam discordar dele.
Uma demonstração disso foi feita também na semana passada, quando o jornal Financial Times publicou que o governo americano avalia se deixará a chinesa Tencent manter seus investimentos na indústria de games do país. A empresa atualmente é dona, entre outros, da Riot, empresa californiana que criou “League of Legends”, e detém 28% das ações da Epic Games, dona de “Fortnite” e da plataforma de criação de games Unreal Engine.
Como todo líder autoritário, é por meio do medo que Trump busca impor suas vontades. Ações como a contra Tencent servem de alerta para os executivos de outras empresas de games para não se oporem às práticas ilegais do presidente americano.
Veículo: Folha Uol












