Após matar homem-forte do regime, Estado judeu afirma ter atingido chefe da Inteligência do rival
Ministro Katz diz que suas forças não precisam mais pedir aprovação para atacar figuras importantes
18.mar.2026 às 9h33
São Paulo
Um dia após matar o homem-forte do regime iraniano, Israel anunciou ter atingido mais uma alta autoridade da teocracia e deu pela primeira vez carta-branca para suas Forças Armadas assassinarem outras sem pedir permissão prévia ao comando militar.
Segundo o ministro da Defesa do Estado judeu, Israel Katz, um ataque israelense matou nesta madrugada de quarta-feira (18) Esmail Khatib, que ocupava a pasta de Inteligência em Teerã e era visto como muito próximo do novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei.
Ruínas de edifícios destruídos por ataques dos EUA e Israel em Teerã, capital do Irã – Sha Dati – 15.mar.26/Xinhua
O governo iraniano ainda não comentou a informação, mas até aqui nesta guerra esse tipo de anúncio tende a ser acurado.
Além do anúncio, Katz disse que ele e o premiê Binyamin Netanyahu “autorizaram as Forças de Defesa de Israel a alvejar qualquer autoridade graduada do Irã sem a necessidade de aprovação adicional”. Até aqui, a morte de figuras importantes precisava passar por ambos.
Com isso, ele confirma a retomada do plano de decapitação do regime iniciado no dia 28 de fevereiro, quando seu país seguiu os Estados Unidos de Donald Trump em um ataque devastador contra o Irã. Naquele primeiro dia, foram mortos o líder supremo, Ali Khamenei, pai de Mojtaba, e cerca de 40 autoridades políticas e militares.
Khatib era um nome importante do regime. Clérigo, ele era ligado tanto ao estamento da Guarda Revolucionária, o verdadeiro poder no país, quanto ao Judiciário.
Na terça (17), Israel havia matado Ali Larijani, o principal operador da teocracia, e o chefe da temida milícia Basij, Gholamreza Soleimani. O funeral de ambos ocorre nesta quarta em Teerã, e o governo buscou minimizar o impacto sobre o funcionamento das instituições.
“A República Islâmica está assentada sobre um sistema político poderoso e, por isso, não será afetada no caso de perder uma autoridade”, disse o chanceler Abbas Araghchi, que compareceu ao funeral, à rede qatari Al-Jazeera.
Essa avaliação pode estar correta, mas é notável o desaparecimento de 20 altas autoridades do regime, talvez metade de seu corpo principal, em apenas 19 dias de conflito.Analistas apontam que Araghchi está certo em dizer que as instituições da teocracia, com suas influências e sobreposições, têm mantido o governo coeso apesar da pressão.
A aposta de Israel, de todo modo, parece ser em aumentar a intensidade. A ideia de que isso vai estimular os manifestantes que foram massacrados pela Guarda em janeiro a voltar para as ruas, contudo, parece estar no campo dos desejos.
O próprio Trump já desistiu dessa desculpa para a guerra, admitindo a falta de uma oposição unificada.
Assim, há ao menos duas formas de ver a exposição pública da política de assassinatos de lideranças. Por um lado, pode ser simplesmente uma decisão tomada por Trump e Netanyahu, uma vez que a tentativa do americano de obter apoio de aliadospara reabrir o estreito de Hormuz fracassou.
Logo, nesta hipótese, a ideia é tentar pressionar ao máximo o regime. Uma segunda visão da situação, esposada por alguns críticos de Israel, é de que o Estado judeu busca matar qualquer possibilidade de negociação que venha a ser ensejada pela administração Trump.
Por mais linha dura que fosse em público, Larijani, por exemplo, era considerado um homem de conversa, tendo participado da costura doacordo de limitaçãodo programa nuclear dos aiatolás em 2015.
Essa versão dos fatos evidencia a cada vez mais clara discrepância entre EUA e Israel: Trump quer uma vitória fácil para chamar de sua, Netanyahu segue obcecado em destruir a teocracia e suas capacidades ofensivas.
Veículo: Folha Uol












