Hannah Knowles
The Washington Post
Líderes da base trumpista Maga (Make America Great Again) explodiram nesta semana com a afirmação do presidente Donald Trump de que os Estados Unidos precisam de trabalhadores estrangeiros porque não têm “pessoas talentosas” suficientes, e questionaram o compromisso do republicano com a política “América Primeiro” que ele defende e popularizou.
Um esforço do Congresso para divulgar os arquivos do governo sobre o financista acusado de tráfico sexual Jeffrey Epstein —uma causa de anos na direita— avançou contra os desejos da Casa Branca, mesmo enquanto os republicanos descartavam a relevância de emails recém-divulgados escritos por Epstein, incluindo alguns sobre Trump.
A deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, uma aliada de longa data de Trump, discutiu com o presidente em várias frentes após sugerir que a Casa Branca estava muito focada em assuntos estrangeiros e depois de denunciar a recente ajuda financeira do país à Argentina.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com chapéu em que diz “Trump estava certo sobre tudo”, na Casa Branca – Jonathan Ernst – 22.ago.25/Reuters
A dissidência mostrou uma base apaixonada e disposta a desafiar Trump em algumas questões, embora apoiando de forma mais ampla sua liderança. Os críticos do presidente expressaram dúvidas de que as divergências prejudicarão o apoio a ele de forma mais duradoura.
Mas as raras críticas deixam claros os limites da autoridade de Trump sobre a agenda “América Primeiro” e levantaram algumas preocupações do Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato, em 2026. Alguns, inclusive, alertaram que essas divergências poderiam reduzir a participação de eleitores menos engajados que Trump conseguiu mobilizar até aqui —com republicanos já ansiosos para o fato de que esses eleitores não comparecerão quando Trump não estiver na cédula, em 2028.
“Se você mostrar que não está defendendo eles nessas questões populistas e nacionalistas, acho que há um risco real para as eleições de meio de mandato de 2026”, disse o estrategista republicano Steve Cortes, que argumentou que os EUA recebem muitos trabalhadores estrangeiros e estudantes estrangeiros.
Lá Fora
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
Carregando…
“Não conheço ninguém na direita que esteja tão irritado a ponto de romper com Trump, mas estamos desapontados”, disse Cortes. “E queremos levá-lo a um lugar melhor.”
Trump respondeu de forma desafiadora às críticas e se apresentou como o árbitro final do que seu movimento Maga deseja.
“Não se esqueçam que o Maga foi minha ideia”, disse ele à apresentadora da Fox News, Laura Ingraham, nesta semana, depois que ela questionou o número de estudantes estrangeiros que ele está permitindo entrar no país. “O Maga não foi ideia de mais ninguém. Eu sei o que o Maga quer melhor do que qualquer outra pessoa.”
Mais tarde, nas redes sociais, ele chamou “a farsa de Jeffrey Epstein” de uma distração promovida pelos democratas e disse que apenas “um republicano muito ruim, ou estúpido, cairia nessa armadilha.”
Abigail Jackson, porta-voz da Casa Branca, disse em um comunicado que Trump cumpriu muitas de suas promessas, desde garantir a segurança da fronteira até “colocar os trabalhadores americanos em primeiro lugar”. Trump implementou um regime agressivo de tarifas que ele diz ser necessário para trazer empregos de volta aos EUA, e sua gestão buscou conter o programa H-1B, que permite aos empregadores americanos patrocinar trabalhadores estrangeiros especializados, ao anunciar uma taxa de US$ 100 mil para os vistos e investigando supostos abusos do programa.
“Como arquiteto do movimento Maga, o presidente Trump sempre colocará a América em primeiro lugar”, disse a porta-voz.
Mas os republicanos dizem que a ala populista do partido está mostrando seu poder, buscando ficar à frente dos esforços de Trump em certos tópicos em vez de simplesmente seguir as orientações do presidente.
A entrevista de Ingraham com Trump na segunda-feira desencadeou grande parte da reação mais recente, que vem se acumulando ao longo da semana. A entrevistadora pressionou Trump sobre o desejo de alguns republicanos de reduzir os vistos H-1B.
“Se você quer aumentar os salários dos trabalhadores americanos, não pode inundar o país com dezenas de milhares, ou centenas”, disse ela.
“Bem, eu concordo, mas você também precisa trazer talentos”, afirmou Trump.
“Temos muitas pessoas talentosas aqui”, disse Ingraham.
“Não, não há”, disse Trump. “Não, não há.” Ele continuou a defender seu argumento, acrescentando que é difícil preencher alguns empregos especializados com americanos que não têm experiência.
A reação republicana foi excepcionalmente feroz.
O apresentador de rádio conservador Erick Erickson comentou em seu programa de quarta-feira que esta foi a “primeira vez” que ele viu tantos apoiadores de longa data de Trump “furiosos com o presidente”.
“Dizer que não temos talento na América não soa muito como ‘América Primeiro'”, disse Erickson. “As divisões estão surgindo dentro do Maga, porque o presidente é um pato manco, e à medida que ele diz coisas como essa, ele exacerba as divisões.”
Influenciadores do movimento trumpista foram diretos em suas repreensões. Tim Pool, um YouTuber de direita, escreveu sarcasticamente na quarta-feira no X: “Não se preocupem, Trump está trazendo mais H1Bs para garantir que nossos jovens estejam f—-s”, usando termo pejorativo no fim da publicação.
Laura Loomer, uma influenciadora radical de direita, conhecida por sua lealdade a Trump, disse em uma entrevista que a base Maga “tem todo o direito de se sentir desapontada” com a abordagem do governo Trump. “Precisamos garantir que promessas feitas sejam promessas cumpridas”, disse ela.
“Sempre houve uma ala populista”, disse Sean Logue, ex-presidente de condado do Partido Republicano na Pensilvânia, um estado-chave para as disputas eleitorais americanas. “Trump foi capaz de levá-la a novos patamares que eram inimagináveis antes. E o Maga nunca vai abandonar Trump. Mas o movimento agora é maior que Trump”.
Alguns republicanos direcionaram sua ira às pessoas ao redor do presidente, ecoando outras controvérsias em que os apoiadores relutavam em culpar o próprio mandatário.
Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump e comentarista proeminente da base Maga, dedicou grande parte de seu programa de quarta-feira à questão do visto H-1B. Mas ele se concentrou em membros do gabinete de Trump, reproduzindo clipes do secretário do Tesouro, Scott Bessent, reiterando os pontos de Trump e da secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, defendendo o programa de vistos. “O que está impulsionando isso são os tech bros e os oligarcas”, disse Bannon.
Ecoando outros, Gregg Keller, estrategista do partido, afirmou que a base ainda está com Trump. “Acho que isso terá passado na próxima semana”, disse ele sobre o drama do H-1B. “Uma coisa que aprendemos sobre a era Trump é que o amanhã sempre traz um novo ciclo de notícias.”
Trump também entrou em conflito com seus aliados em outros assuntos. Ele sofreu alguma reação negativa da direita no mês passado por ajuda financeira à Argentina, que os críticos chamaram de incompatível com a mensagem “América Primeiro”. O presidente aprovou um pacote de ajuda de US$ 20 bilhões, destinado a estabilizar a moeda argentina, e disse que os EUA comprariam carne bovina argentina para baixar os preços, preocupando muitos criadores de gado americanos e os republicanos que os representam.
Os democratas estão ansiosos para usar a questão da Argentina contra os republicanos e a veem como uma maneira útil de minar a mensagem populista de Trump. Mas a questão não causou uma grande revolta do movimento Maga. Funcionários de Trump rebateram a ideia de que o dinheiro é um resgate a Buenos Aires, dizendo que o governo americano ganhou dinheiro com sua troca de moeda com um aliado.
Epstein tem sido um tópico mais difícil para a Casa Branca deixar para trás. Na quarta-feira, o assunto explodiu novamente quando os democratas do Comitê de Supervisão da Câmara divulgaram emails antigos, incluindo um no qual Epstein escreveu que Trump sabia sobre o abuso sexual de menores, mas nunca participou dos crimes. Trump já socializou com Epstein, mas disse que eles tiveram um desentendimento em meados dos anos 2000 e negou qualquer conhecimento ou participação nos crimes de Epstein.
A Casa Branca e a maioria dos republicanos do Congresso, incluindo alguns que ajudaram a forçar uma votação sobre a divulgação dos arquivos de Epstein, minimizaram os emails e acusaram os democratas de divulgá-los para distrair de seu próprio fracasso em obter concessões sobre a paralisação do governo, que terminou nesta semana. Os republicanos saíram em grande parte em defesa de Trump neste ano, à medida que relatos na imprensa se concentravam no relacionamento do presidente com Epstein e os democratas começaram a falar mais sobre o assunto.
“Desde que a mídia mainstream deu atenção a isso, a base Maga está em uma postura muito mais defensiva e não está procurando perseguir algumas das questões legítimas em torno de Epstein, e ainda menos seu relacionamento com o presidente”, disse o estrategista republicano Matthew Bartlett.
Mas um debate mais amplo sobre as informações do governo sobre Epstein, conhecidas como “arquivos Epstein”, continua. Influenciadores republicanos ajudaram a elevar questões sobre o caso e reagiram contra o governo neste verão, depois que o Departamento de Justiça disse que não encontrou nenhuma “lista de clientes incriminadora”, apesar da especulação desenfreada sobre o assunto na direita. O próprio Trump criticou apoiadores obcecados com o caso Epstein e disse que não queria mais o apoio deles.
“Ele se distanciou da base Maga”, disse o deputado Thomas Massie, que foi um dos líderes de uma petição que forçará uma votação na próxima semana sobre a divulgação dos arquivos Epstein. A petição teve apoio de outros três membros republicanos da Câmara, incluindo Marjorie Taylor Greene, que nesta semana se opôs de forma pontual a Trump sobre os vistos H-1B, política externa e outras questões.
“Eu sou América Primeiro e América Apenas”, escreveu Greene na quarta-feira no X. Trump disse nesta semana que Greene estava “atendendo ao outro lado”. “Ela é uma mulher legal, mas não sei o que aconteceu”, disse Trump. “Ela perdeu o rumo.”
Veículo: Folha Uol











