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Normas do Talibã impedem socorro a mulheres em terremoto no Afeganistão

Fatima Faizi

The New York Times

Os primeiros socorristas chegaram à vila de Bibi Aysha mais de 36 horas depois que um terremoto devastou assentamentos nas áreas montanhosas do leste do Afeganistão no último domingo (31). Mas, em vez de trazer alívio, a chegada deles aumentou os medos das afegãs. Nenhuma mulher estava entre os socorristas.

As normas culturais afegãs, impostas pelo Talibã mesmo em situações de emergências, proíbem o contato físico entre homens e mulheres que não sejam familiares. Na vila de Andarluckak, na província de Kunar, a equipe de emergência rapidamente retirou homens e crianças feridos e tratou seus ferimentos, disse Aysha, 19.

Mas ela e outras mulheres e adolescentes, algumas sangrando, foram deixadas de lado, contou. “Eles nos reuniram em um canto e se esqueceram de nós”, disse ela. Ninguém ofereceu ajuda às mulheres, perguntou o que precisavam ou nem sequer se aproximou delas.

Uma mulher afegã vestindo burca, com a perna ferida, ao lado de crianças fora de uma casa no distrito Dara-i-Nur, na província de Nangarhar – 3.set.25/AFP

Tahzeebullah Muhazeb, um voluntário homem que viajou para Mazar Dara, também na província de Kunar, disse que os membros da equipe médica composta apenas por homens hesitaram em retirar mulheres debaixo dos escombros de edifícios desabados. Mulheres presas e feridas foram deixadas sob pedras, esperando que mulheres de outras vilas chegassem ao local para resgatá-las.

“Parecia que as mulheres eram invisíveis”, disse Muhazeb, 33. Ele acrescentou: “Os homens e crianças foram atendidos primeiro, mas as mulheres ficaram sentadas à parte, esperando atendimento.”

Se nenhum parente do sexo masculino estivesse presente, disse ele, os socorristas arrastavam as mulheres mortas pela roupa para evitar contato físico.

Mais de 2.200 pessoas morreram e outras 3.600 ficaram feridas no terremoto de magnitude 6 que destruiu inúmeras aldeias, de acordo com dados divulgados pelo governo do Afeganistão.

Grupos de ajuda e organizações humanitárias afirmam que a resposta ao terremoto no domingo mostrou claramente os padrões duplos de repressão enfrentados por mulheres e meninas no Afeganistão, que ficam presas não apenas sob os escombros, mas também sob o peso da discriminação de gênero.

“Mulheres e meninas voltarão a sofrer as consequências desse desastre, por isso devemos garantir que suas necessidades estejam no centro da resposta e da recuperação”, disse a representante especial da ONU Mulheres no Afeganistão, Susan Ferguson, em comunicado.

Embora o Talibã não tenha divulgado a divisão por gênero das vítimas, mulheres enfrentaram uma provação especialmente dura, agravada por negligência e isolamento, disseram em entrevistas médicos, socorristas e mulheres das áreas atingidas pelo terremoto.

O Afeganistão enfrenta uma escassez crítica de profissionais de saúde e, em particular, de mulheres nessa área. No ano passado, o Talibã impôs uma proibição à matrícula de mulheres em cursos de medicina. A falta de médicas e socorristas femininas ficou mais evidente após o terremoto.

Mulheres e meninas no Afeganistão enfrentam algumas das restrições mais severas do mundo sob o Talibã, que assumiu o poder há quatro anos e permaneceu inflexível, mesmo quando a maior parte do mundo muçulmano, inúmeras organizações de direitos humanos e entidades como o Banco Mundial alertaram sobre os efeitos de longo prazo dessas políticas no tecido social e na economia do país.

Meninas são proibidas de frequentar a escola além da sexta série. Mulheres não podem viajar longas distâncias sem a companhia de um homem e são impedidas de ocupar a maioria dos empregos, inclusive em ONGs e organizações humanitárias. Mulheres afegãs que trabalham para agências da ONU enfrentaram assédio repetido, culminando em ameaças tão graves que as agências instruíram suas funcionárias a trabalhar temporariamente de casa.

No Afeganistão, normas culturais e religiosas rígidas significam que apenas um parente próximo masculino —pai, irmão, marido ou filho— pode tocar uma mulher. O mesmo se aplica ao contrário: mulheres não podem tocar homens fora da família. Em zonas de desastre, socorristas femininas são impedidas de ajudar homens. Mas uma mulher pode retirar outras mulheres, mesmo sem grau de parentesco, debaixo dos escombros.

Uma jornalista do New York Times que chegou à área de Mazar Dara no dia seguinte ao terremoto não viu nenhuma mulher entre as equipes médicas, de resgate ou de ajuda que atendiam as vítimas. Em um hospital distrital visitado, não havia funcionárias do sexo feminino.

Quando um pequeno número de enfermeiros e trabalhadores humanitários começou a chegar às áreas afetadas na terça-feira (2), apenas algumas eram mulheres. Soldados as seguiram e impediram jornalistas de fazer perguntas ou fotografá-las.

Um porta-voz do Ministério da Saúde, dirigido pelo Talibã, reconheceu a falta de profissionais de saúde mulheres nas áreas atingidas pelo terremoto. “Mas nos hospitais de Kunar, Nangarhar e Laghman, o maior número de médicas e enfermeiras está trabalhando, especialmente para tratar vítimas do terremoto”, disse Sharafat Zaman, porta-voz, sobre as províncias mais afetadas.

Na vila de Aysha, citada no início desta reportagem, nenhuma mulher socorrista havia chegado até quinta-feira, quase quatro dias após o terremoto, disse ela. Ela e seu filho de 3 anos passaram as últimas três noites ao relento, já que a chuva a impedia de chegar a um abrigo ou à cidade onde seu marido trabalha.

“Deus salvou a mim e a meu filho”, disse Aysha. “Mas depois daquela noite, entendi —ser mulher aqui significa que sempre seremos as últimas a ser vistas.”

Veículo: Folha Uol

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/09/normas-do-taliba-impedem-socorro-a-mulheres-em-terremoto-no-afeganistao.shtml

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